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Durante muitos anos vivi duas vidas em paralelo.
Uma era normal. Igual à de quase toda a gente. Escola, aulas, horários, professores a falar, matérias para decorar, testes para passar. Uma vida previsível, segura, aborrecida.
A outra era silenciosa. Invisível. Acontecia à noite, aos fins de semana, nos intervalos, quando ninguém estava a olhar. Era uma vida movida por curiosidade, por obsessão, por aquela necessidade quase física de perceber como é que as coisas funcionam por dentro – e o que acontece quando deixam de funcionar.
Hoje, aos 25 anos, percebo que essas duas vidas nunca estiveram realmente separadas. Só estavam fora de fase.Nunca fui o exemplo
Na vida “normal”, eu nunca fui o exemplo.
Nunca fui o aluno exemplar, nunca tive médias brilhantes, nunca fui aquele filho ou irmão que os adultos apontam e dizem “devias ser como ele na escola”. Se alguém tinha de servir de referência lá em casa, nunca fui eu. E eu sabia disso.
Enquanto outros encaixavam naturalmente no sistema – boas notas, bom comportamento, caminho certo – eu estava quase sempre fora de ritmo. Não por rebeldia consciente, mas porque aquele modelo simplesmente não me dizia nada. Não me via, nem me revia, ali. E, no fundo, sentia que estava a falhar num jogo que nunca escolhi jogar.
Durante muito tempo isso pesou. Não corresponder às expectativas, não ser o “exemplo” para os meus irmãos, não encaixar no molde do que era suposto ser um bom aluno ou um bom miúdo. E talvez o mais difícil: sentir que ninguém me compreendia verdadeiramente.
Começou cedo (e por escolha)
Aos 13 anos comecei a trabalhar por uma razão simples: não queria ir para a seca das colónias de férias… e queria comprar o meu primeiro computador, mesmo meu.
Enquanto outros iam passar o verão fora, eu preferi trabalhar. Estufas a apanhar tomate, vindimas, a descamisar milho, pintar paredes, pequenos trabalhos manuais. Nada de glamour. Mas havia algo importante ali: liberdade. Cada dia de trabalho aproximava-me de um objetivo concreto – ter o meu próprio computador, sem depender de ninguém.
Esse detalhe mudou tudo.
Não era só o dinheiro. Era a sensação de controlo. A ideia de que, se quisesse algo, podia conquistá-lo com esforço. Essa lógica nunca mais me largou.
O avô, a eletricidade e o início de tudo
Muito antes de computadores, houve eletricidade.
E aí, não estava sozinho.
O meu avô teve uma presença enorme nesta fase. Tudo o que era eletricidade aprendi com ele. Tomadas, interruptores, quadros elétricos, ligações improvisadas, perceber como a corrente circula, onde pode falhar, onde é perigoso, onde é simples.
Não eram aulas formais. Eram momentos. Observação. Perguntas. Mãos na massa.
Era ele a explicar, eu a experimentar, e a aprender que sistemas – mesmo os mais básicos – têm regras invisíveis. E que ignorá-las tem consequências.
Sem me aperceber, aprendi ali algo fundamental: respeitar sistemas não significa ter medo deles. Significa compreendê-los.
A escola, a solidão e a outra vida
Na escola, eu era mediano. Não por incapacidade, mas por desinteresse. Raramente via sentido naquilo. Enquanto muitos decoravam matéria, eu estava obcecado com computadores, routers, switches, firewalls. Queria perceber redes, sistemas, falhas. Queria construir coisas – e desmontá-las.
Mas havia um lado menos visível desta fase: a solidão intelectual.
Não tinha ninguém com quem falar verdadeiramente sobre isto. Sempre que tentava explicar o que andava a fazer, a primeira pergunta era quase sempre a mesma:
“Isso é legal?”
Ou então:
“Mas para que é que isso é importante?”
Pouca gente queria perceber porquê. Quase toda a gente queria saber se devia.
E isso foi criando uma distância. Eu estava a aprender coisas que ninguém à minha volta valorizava – ou sequer entendia. E isso, aos 15 ou 16 anos, pesa.
Ainda por cima, em 2014 ou 2015, cibersegurança não era um tema da moda. Não havia podcasts, creators, Twitter threads, cursos acessíveis, nem grande abertura para falar ou escrever sobre isto online. Era um tema de nicho. Quase estranho. Pouco glamoroso. Pouco compreendido.
Mesmo assim, continuei.
Comecei a programar aos 14. Aos 15 já passava mais tempo a testar sistemas do que a estudar para testes. Aos 16 e 17, comecei a construir ferramentas ofensivas: reconhecimento de redes e websites, mapeamento de exposição digital de pessoas e organizações, automação de exploração de vulnerabilidades simples, sistemas que ligavam pontos que mais ninguém parecia estar a ligar.
Não seguia tutoriais. Aprendia a fazer. Errando. Repetindo.
Na escola, comecei a testar sistemas reais. Plataformas internas, sistemas de presenças (a minha forma de não reprovar por faltas…), ferramentas digitais que toda a gente assumia que “funcionavam”. Durante o COVID, ataquei o sistema de testes online da escola.
E aqui vem a ironia: eu nunca fui um grande aluno… excepto nessa altura. Foi aí que tive 20s – a nota máxima – em todos os testes de Português. Nunca fui particularmente bom em línguas. Mas quando o sistema me interessou, tornei-me excelente.
Nunca foi sobre notas. Sempre foi sobre motivação.
O poder de saber algo que mais ninguém sabe
Havia uma sensação que se repetia sempre que encontrava uma falha. Um misto de curiosidade, controlo e clareza. De repente, vias o sistema como ele realmente era – não como as pessoas achavam que era.
Às vezes isso acontecia em contextos quase absurdos. Estar aborrecido à espera de uma encomenda e, enquanto esperava, descobrir uma falha lógica que fazia expor a base de dados inteira de clientes e encomendas. Outras vezes perceber que era possível mandar vir cápsulas de café para casa sem pagar (café sempre foi uma das minhas bebidas favoritas…).
Nunca foi sobre o café. Nem sobre destruir por destruir.
Era sobre alavancagem. Sobre encontrar o ponto frágil que ninguém estava a ver. Sobre saber algo que mais ninguém sabia.
Quando a curiosidade ficou séria (e a dúvida apareceu)
Aos 17 anos, construí um sistema de reconhecimento facial de raiz. Não porque precisava dele, mas porque queria perceber como funcionava – e como podia ser atacado.
Foi também nessa altura que tive uma das conversas mais difíceis com os meus pais.
Disse-lhes que queria ir para Felgueiras – a cerca de 400 km de casa – estudar cibersegurança. A reação foi honesta, preocupada, legítima:
“Tens mesmo a certeza que isso tem futuro?”
“Olha que o mercado de trabalho não está fácil.”
Não era falta de apoio. Era medo. E amor.
Mas eu tinha a certeza. Não porque tivesse garantias, mas porque não conseguia imaginar-me a fazer outra coisa.
Mais tarde, essa mentalidade encontrou um lugar profissional. Na LOQR, ajudei a construir sistemas operativos altamente customizados para infraestruturas bancárias. Sistemas operativos ultra-leves, a correr inteiramente em RAM em máquinas virtuais.
Era a mesma obsessão de sempre. Só que agora com impacto real.
A casa de banho que virou datacenter
Na universidade, o dinheiro era pouco (ou nenhum). Cloud era caro. Mas a necessidade era muita.
Então fizemos o que sempre fizemos: removemos a limitação. Construímos o nosso próprio “datacenter” na casa de banho do apartamento. Foi ali que nasceu a primeira cloud da ROOTKey. Kubernetes, orquestração de containers, auto-scaling. Foi ali que correram os primeiros pilotos.
Nada disto estava num plano bonito. Estava numa necessidade simples: isto tem de funcionar.
O ponto de viragem
Houve um momento em que tudo ficou claro.
Eu conseguia, com tempo suficiente, explorar vulnerabilidades críticas em praticamente qualquer empresa. Mas o verdadeiro impacto não estava em atacar. Estava em ajudar organizações a recuperar quando tudo falha.
Foi aí que a NOTCyberSec nasceu (mais tarde ROOTKey).
Não como uma ideia de negócio bonita – até porque eu nunca quis “abrir uma empresa” – mas como a consequência natural de tudo o que vivi até ali.
Duas vidas, uma direção
Hoje, aos 25 anos, percebo que nunca tive realmente duas vidas. Tive uma só, vista de dois ângulos.
A vida “normal” ensinou-me responsabilidade.
A vida paralela ensinou-me profundidade.
Uma deu-me disciplina. A outra deu-me visão.
Uma mostrou-me limites. A outra ensinou-me a contorná-los – ou a removê-los por completo.
E, no início de tudo, houve alguém que me ensinou a respeitar sistemas antes mesmo de eu saber o que isso significava.
Este sou eu.
Não sou o fundador perfeito.
Não sou o exemplo óbvio.
Mas alguém que sempre precisou de perceber o que está por baixo da superfície.
E que nunca conseguiu parar depois disso.


